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A reportagem mostra a Islândia, a terra do gelo eterno, do sol da meia-noite, o país onde um ramo do paganismo foi elevado à condição de religião oficial e onde as mulheres estão recuperando o poder das bruxas para salvar a natureza.
Johanna é uma bruxa, mas esqueça tudo que você já ouviu sobre verruga na ponta do nariz e poções com asa de morcego. Ela está mais para uma dona de casa quase comum, que cria galinhas em meio aos cachorros, esculpe deusas que chama de amigas e convive ainda com algumas outras criaturas.
"Dizem que nós acreditamos em elfos e duendes. Bem, há tantos poderes em torno de nós que não conhecemos".
Num lugar como este, onde Johanna mora, é mesmo fácil entender porquê quase todo mundo acredita em quase qualquer coisa. Árvore, não tem. Aliás, quase nenhuma vegetação sobrevive ao frio extremo. Mesmo os animais são raros. Uma raça de cavalos adaptada à temperatura, e alguns poucos e soturnos pássaros.
Rochas negras brotam do chão compondo a paisagem lunar. A terra ainda jovem e voluntariosa se rompe em geisers. A natureza se impõe. Mostra seu temperamento forte chacoalhando a rotina com terremotos constantes.
Em meio à desolação, pouquíssimas cidades. A principal atividade é distrair os turistas, que vão conhecer o exótico. Da água que emerge quente, fizeram-se lagoas para relaxar os visitantes. O líquido sulfuroso não tem cheirinho de perfume francês, mas talvez por isso mesmo combine com a estranheza local.
"É tudo muito esquisito, mas estou gostando desses dias longos, parece que a gente nunca vai ficar sem tempo", diz a jovem britânica.
Ela está certa. Nessa época do ano, o verão deles, os dias não acabam. À meia-noite o sol se esconde no horizonte para voltar em seguida, ainda mais brilhante. São meses de luz contínua, nunca escurece.
Mesmo com temperaturas perto de zero, é hora de aproveitar a vida do lado de fora. O inverno chega logo, trazendo então a noite que nunca termina.
Na Islândia, a terra do gelo, 12% do território é assim, mesmo no verão, e o resto do país é coberto de rocha vulcânica e grandes desertos. Pois foi justamente nessa ilha inóspita que renasceu a crença na grande mãe, nos deuses que controlam os ciclos da vida. O paganismo, ou bruxaria, é religião oficial aqui.
Johanna será sagrada sacerdotisa hoje. Depois de três anos de estudos, ela está pronta para comandar os rituais do Asatru, o ramo do paganismo que se desenvolveu na Islândia.
Johanna faz o juramento, agradece aos deuses a chance de promover a paz no mundo, e oferece bebida, um tipo de cerveja, à sedenta mãe terra.
Cada objeto na cerimônia tem seu significado. A sacerdotisa mais experiente nos conta que o chifre é um dos principais, porque une uma ponta feminina e outra masculina. É a igualdade entre os sexos -- coisa que a maioria das mulheres procura quando se converte ao Aasatru e já são centenas na Islândia.
"Para a mulher significa muito ter os mesmo direitos do homem", diz esta bruxa.
E pensar que no local, no século dezessete, bruxas eram queimadas em fogueiras. É desse passado que vêm as lendas sobre o paganismo -- que passou a ser considerado maldito por rejeitar as divindades cristãs e adorar dezenas de deuses e deusas que se comportam como pessoas comuns.
Freya, a deusa do amor e fertilidade. Thor, deus do trovão, o grande protetor. Odin, o mestre das runas, o alfabeto mágico, a que bruxos e bruxas recorrem para falar com os deuses.
Johanna nos explica que as cores também são importantes, por isso escolheu vermelho, a cor da energia, para o dia de sua sagração. O tom da natureza feminina.
"As mulheres nessa religião sabem que são iguais aos homens, pois sempre foi assim no passado, elas com o mesmo status que eles, e as deusas tão poderosas quanto os deuses", afirma Johanna.
E por isso elas foram perseguidas. Davam ervas aos doentes e tinham o poder da cura. Respeitavam os ciclos da Terra e tinham o poder de fazer crescer os alimentos. Poder demais para mulheres.
Poder que agora, elas querem de volta. Rana fez dezoito anos e decidiu se converter ao Asatru. Invoca a proteção de três deuses amigos e usa o fogo para eternizar seu pedido.
"Pedi que eles façam de mim uma mulher independente, forte, é por isso que estou aqui".
Rana está aprendendo que bruxaria não é coisa do mal. É coisa natural e há muito poder na natureza. Uma bruxa é uma mulher que quer ser inteira e mulheres são mesmo muito poderosas. http://video.globo.com/Videos/Player/Noticias/0,,GIM226236-7823-MULHERES+HISTORIAS+DE+BRUXARIA,00.html
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